domingo, 12 de outubro de 2014

Personalidades Diferentes

  Uma manhã, enquanto estava a tomar um café, como costumava fazer todos os dias, ouvi duas senhoras (muito "bisbilhoteiras"), a falar sobre uma velha lenda local sobre uma casa assombrada. No início não liguei muito, pois todos os dias se falava sobre duas primas que nunca tiveram uma relação amigável e um dia, depois de muito ódio acumulado, algo de terrível aconteceu fazendo com que as primas fizessem as pazes.
  Como é que duas primas se podiam odiar? Como se consegue odiar alguém do mesmo sangue? Que algo terrível poderia ter acontecido para elas fazerem as pazes?
  Acabei de tomar o meu café e voltei para casa, para junto dos meus queridos livros. Liguei o computador e procurei saber mais sobre esta lenda. Nada encontrei. Mas como não desisto facilmente e sei que a internet não é o único recurso, utilizei um outro que em pleno século XXI,  pode-se dizer que é do "Tempo da Pedra", e fui até à biblioteca municipal. Elas ainda existem!!
  Mal entrei, fui em passo apressado, porque dentro de uma biblioteca não se corre, até à secção de "Mitos e Lendas" esperando que lá dentro estivessem as respostas às minhas perguntas.
  Li e reli aquela trágica vezes e vezes sem conta, até não deixar a mínima palavra, o mínimo artigo definido, o mínimo sinal de pontuação. …
  Agora que já vos expliquei como encontrei com esta lenda passo a contar-vos o que aconteceu. De certeza que ficaram bastante interessados em saber que acontecimento terrível se sucedeu!
  Daniela nasceu exatamente no dia em que a sua prima Luana fazia um ano. Nasceu no dia 22 de novembro de 1832. Devido a este acontecimento, Luana não pode ter a sua primeira festa de aniversário como qualquer criança normal.
  Desde de que Daniela nasceu, Luana deixou de ser o centro das atenções. Daniela era uma menina linda! Cabelos loiros e olhos azuis de fazer inveja! Quem era Luana? Uma simples morena de olhos castanhos escuros. O que tinha isso de especial?  Nada! A qualquer lugar que fossem, Daniela era sempre admirada por todos, enquanto, Luana, era posta de parte, o que levou a grande parte de acumulação de ódio pela prima. Não é que gostasse de ser o centro das atenções... Mas gostava que soubessem que naquela família não existia só Daniela, ela também estava lá.
  As duas primas não conseguiam estar na mesma sala mais do que dois minutos, o que nos almoços e jantares de família e aniversários dificultava um bocadinho.
  Isto devia-se principalmente aos seus gostos bastante diferentes. Enquanto Luana era rebelde, gostava de cores escuras e odiava maquilhagem,  fazer compras e amava jogar futebol e qualquer actividade física que envolve-se força ou uma bola. Daniela exatamentente o contrário. Era a menina "certinha", gostava de cores claras, amava maquilhar-se, podia passar um dia inteiro no centro comercial a comprar roupas e odiava qualquer desporto pois podia partir as unhas.
  No dia em que as primas fizeram anos foi a confusão total! Luana queria passar o dia com os amigos, pois para si eles eram a verdadeira família. Já Daniela, só para embirrar, dizia que tinha que passar o dia mais importante da vida dela com a sua família incluindo Daniela, pois para ela eram as pessoas mais importantes do Mundo, mas claro que apenas o dizia para irritar Luana.
  A mãe de Luana não a deixou passar o aniversário com os amigos, mas sim com a família.
  Quando finalmente chegou o dia tão esperado, Daniela estava "em pulgas" e vestiu o sem melhor vestido, enquanto que Luana, bastante aborrecida, vestiu o único vestido que tinha oferecido pela avó no aniversário anterior. Vestiu-o só para agradar a avó que era a única pessoa da família em quem ela confiava, respeitava e amava acima de tudo.
   Antes de descer para a festa, Luana esforçou se para colocar o seu melhor sorriso. Tinha a certeza que iria odiar a festa, mas por saber que a avó lá estava já valia o esforço sair do quarto.
  Todos os anos as festas de aniversário eram ao gosto de Daniela,  mas este ano as coisas iriam mudar um bocadinho.
  Então?! Conseguem imaginar o que aí vem??
  Sem mais demoras, conto-vos.
  Assim que desceu as escadas, Luana teve uma grande desilusão, sendo incapaz ela de imaginar o que por aí vinha.
  Quando desceu as escadas só lhe deu vontade de chorar.
  A sala estava toda decorada tal e qual como Daniela gostava.
  Pregada ao teto uma bola igual às das discotecas, uma parede pintada com um arco íris, músicas da banda One Love (aos quais Luana denominava de "betinhos"), no chão um tapete cor de rosa e encostado a uma parede uma espécie de banca que tinha tudo o que envolvia produtos de beleza. Numa enorme mesa estavam vários doces junto do seu enorme bolo de três andares cor de rosa com várias gomas em forma de coração.
  Luana olhou para a avó com os cheios de lágrimas,  algo dentro dela lhe dizia que avó iria fazer algo diferente para ela como fazia todos, ou por exemplo fazia um bolo diferente para Luana ou colocava efeitos diferentes, mas desta a vez não tinha sido absolutamente nada.
  A avó foi ter com ela desejou-lhe feliz aniversário e pediu à neta para a seguir.
  Levou-a até à sala de jantar e Luana não podia acreditar no que via.
  As paredes estavam completamente pintadas de preto, por todo o lado existiam espanta espíritos e imagens de seres míticos. A fazer de candeeiro estava a cabeça de um humano em plástico. Havia também uma enorme mesa onde estava colocada uma magnífica cascata por onde escorria sangue (sumo de cereja) e um bolo de chocolate com três camadas e decorado com gomas em forma de dentes de vampiros, mais o mais importante de tudo dentro daquela sala era o facto de lá estarem os seus amigos.
  Luana agradeceu à avó que lhe explicou que o mérito não tinha sido só seu, mas também da mãe de Luana que se queria desculpar por todos aqueles anos em que não dera atenção ao seu bem mais precioso, a filha. Não cabendo em si de feliz, Luana, por entre lágrimas,  agarrou-se à mãe aos beijos e aos abraços enquanto dizia que a amava muito. Com tanta emoção até deu um beijo à prima que muito depressa limpou a cara e fez uma enorme careta.
  A festa não poderia estar a correr melhor! Luana em 16 anos nunca se tinha divertido tanto como naquela noite. Até que...
  Pela primeira vez Luana era o centro das atenções. A mãe não a largava um único minuto e até conversava com os seus amigos, incluindo o seu melhor amigo Diogo, de quem Luana gostava, mas do qual a mãe sempre falara mal. Até o pai dela tinha vindo de uma das suas reuniões só para estar com a filha.
  Consumida pelos ciúmes e raiva, Daniela, entrou na sala de jantar rasgando os efeitos e despejando a cascata de sumo em cima da prima.
  Sentindo-se humilhada, Luana correu para o seu quarto e trancou-se lá a chorar.
  Durante dez minutos os seus melhores amigos Diogo e Andreia bateram à porta do seu quarto e suplicaram para que Luana abrisse a porta, mas sem obterem resposta. Meia hora depois, Luana adormeceu vencida por um cansaço.
  Por volta da uma da manhã acordou.
  Abriu a porta e a casa estava penetrada na enorme escuridão e silêncio. Nem o mínimo sinal de movimento. Chegando-se junto da cama, agachou-se e pegou uma velha mochila de cabedal que lá tinha. Abriu o armário e de lá de dentro tirou roupa suficiente para uma semana e guardou-a dentro da mala. Foi até junto da cómoda e pegou a sua carteira com 15€ lá dentro. Desceu as escadas e encontrou os seus melhores amigos deitados a dormir no sofá da sala. Sem fazer o menor barulho foi até à cozinha buscar dois pacotes de bolachas e duas carcaças.
  Pegou numa caneta e no bloco que estava no frigorífico e escreveu um bilhete à avó a dizer que estaria fora de casa uma semana, mas que estaria bem. Voltaria para casa de quando se sentisse melhor.
  Saiu da cozinha em "pezinhos de lã" mas assim que chegou à porta de saída alguém a agarrou por trás tapando-lhe a boca imediatamente o que fez com que Luana ficasse bastante alarmada.
   O sujeito largou-a em cima do sofá e só aí falou. Luana não lhe conseguia ver bem o rosto, mas assim que ele falou ela percebeu que se tratava de Diogo a quem agora ao seu lado se juntara Andreia.
  Luana explicou tudo o que se passara e ao fim de uma longa discussão ficou resolvido que eles iriam com ela. Se eram melhores amigos tinham que lá estar para o bem e para o mal, quase como um casamento,  só não incluía viverem juntos e usarem uma aliança no dedo.
  Os três estavam fascinados, iriam na sua pequena aventura. Iriam viver mesmo ao lado da casa de Diogo, na floresta.
  A notícia que os três jovens tinham desaparecido já percorrera o país inteiro, sem nunca os pais suspeitarem que eles estavam mais perto do que imaginavam.
  Ao fim de três dias de aventura já todos estavam demasiado cansados para continuarem fora de casa, mas Luana estava determinada em ficar na floresta por mais tempo e pedia-lhes para os outros regressarem pois ela podia ficar lá sozinha. Obviamente que os amigos não concordaram e ficaram todos na imensa floresta. Como na noite anterior tinham visto ursos, Diogo, que tinha a chave de casa, entrou à socapa durante a noite e "roubou" a arma do pai, voltando para junto de Andreia e da sua nova namorada, Luana.
  Enquanto estavam na floresta Diogo tinha-se declarado a ela fazendo com que Luana confessasse o que sentia por ele.
  Por volta das 23:00, bastante cansados, foram-se deitar.
  Luana esperou até que todos adormecessem pois tinha um plano em mente e não o podia executar se os amigos tivessem acordados.
  Pegou na arma que tinha escondido de baixo da da almofada e correu em direção à sua casa
  Quando chegou, já era 1:30 da manhã e a luz do quarto da prima estava acesa. Entrou dentro de casa sem fazer o mínimo barulho e seguiu para o quarto de Daniela. Abriu a porta e lá estava ela a ver-se ao espelho.
  Entrou, fechou a porta devagarinho e fez mira à cabeça de Daniela que entretanto se tinha virado para ver quem era o intruso no seu quarto. Assim que viu a prima, começou aos berros. A avó das primas ouvindo o vasqueiro e entrou no quarto . Olhando para Luana não queria acreditar no que via, a sua menina de arma apontada à da prima.
  Luana olhou-a com os olhos cheios de lágrimas e pediu desculpa à avó,  mas já não aguentava mais a falta de carácter da prima.
  De repente, a avó das primas caiu no chão.
  Muito alarmada, Luana atirou a arma para o chão e encostou o ouvido ao peito da avó. Não ouvindo o seu coração bater olhou para Daniela e gritou para que esta ligasse para o 112.
  Daniela obedeceu à prima enquanto esta tentava reanimar a avó,  mas sem qualquer sucesso.
  Em cinco minutos, a casa inteira estava acordada em volta do corpo da avó.
  Os paramédicos chegaram e levaram o corpo para a ambulância. Sem qualquer discussão, Daniela disse a Luana para ir na ambulância com a avó que ela seguiria atrás no carro.
  Chegada a família inteira ao hospital, ficaram na sala de espera aguardando ansiosamente alguma notícia do médico.
  Ao fim de uma hora uma enfermeira apareceu e comunicou que a avó tinha tido um ataque cardíaco devido à adrenalina sentida, mas que agora estava tudo bem.
  As duas primas abraçaram-se, chorando e pedindo desculpas uma à outra.
  De mãos dadas  foram ter com a avó que não poderia estar mais feliz por ver o final que aquele triste momento tinha desencadeado.
  Já sabendo das novidades um dia depois de regressarem a casa, Diogo e Andreia foram ao hospital para ver como Luana e a avó estavam.
  Quando chegaram ao hospital, não podiam acreditar no que os seus olhos viam. Luana estava sentada num pequeno banco de jardim com a avó e a prima e estava com um vestido cor de rosa e uma fita nos longos cabelos soltos a condizer, enquanto ria com a prima e falava com ela alegremente.
  Os dois amigos juntaram-se às animadas senhoritas para saberem o que se tinha passado.
  Daniela e Luana contaram o seu triste episódio aos amigos que ficaram boquiabertos com o que se tinha passado.
  Depois foi a vez dos três melhores amigos contarem à avó o que se passara na floresta que tinha ficado bastante contente por saber do namoro de Diogo e Luana.
  Ao fim de 5 dias, a avó saiu do hospital de braço dado com as netinhas.
  A partir desse dia, todos em casa se davam bem, chegando a ser mesmo a família mais unida do bairro.
  Ao fim de alguns anos Luana tinha-se casado com Diogo e tinham tido um menino e uma menina e Daniela tinha casado com um rapaz que também era do grupo de Luana, o António. Ela sempre tinha gostado dela, mas nunca tinha admitido porque ela fazia parte do grupo dos "ET'S". Tiveram uma menina que Daniela chamou de Luana em homenagem à prima.
  Todos os Domingos passavam o dia em família em casa da avó e claro que de vez em quando havia discussões,  mas era sobre quem mais gostava da avó ou se Daniela gostava mais de Luana ou era Luana que gostava mais de Daniela.
  Então?!
  Gostaram deste final??
  Não estavam à espera, pois não? Nem eu. Mas que contador de histórias seria eu se não desse um final feliz?



O Pequeno Diário de Beatriz


  28, de novembro de 1983
  Olá mãe,
   Agora que já cá não tinha que arranjar uma forma para falar contigo. Continua a ser estranho falar contigo pelo meu diário, mas é a única forma que tenho de falar contigo pelo meu diário, mas é a única forma que tenho para te contar o que se passa na minha vida.
  À duas semanas tinha dito-te que ia passar o fim de semana a casa da prima, Fui a semana passada e agora estou aqui para te contar como foi.
  Foi espetacular, mas também um pouco assustador.
  Perto da casa da prima há um poço. Está fechado há dois anos (fez dois anos dia 1 de novembro), porque uma rapariga caiu lá dentro, mas sobreviveu.
  Assim que a prima me contou esta história quis ir investigar, porque como sabes nós temos o nosso trio de investigadoras. Sou eu, a prima Raquel e a Rafaela, a melhor amiga da prima. 
  A mãe da Rafaela é polícia. Para que nós pudéssemos investigar o caso "foi puxando uns cordelinhos" e conseguiu com que nós tivéssemos acesso ao ficheiro do caso.
  Neste ficheiro dizia que a rapariga tinha caído ao poço acidentalmente, que tinha tropeçado numa pedra e caído lá para dentro.  Tinha fotos do poço, da pedra em que tinha tropeçado e uma foto da rapariga. Também dizia que o nome dela era Alexandra Botelho e dizia a morada. Apontamos a morada e fomos falar com a mãe da Rafaela. A mãe da Rafaela contou-nos que a Alexandra não falava. A queda tinha-lhe afetado o lado esquerdo do cérebro que é o que comanda a fala.
  O médico que a assistiu disse que não haveria forma nenhuma dela comunicar, mas como nós as três somos teimosas decidimos ir falar com o professor Pierce.
  Este professor é esquizofrénico, mas muito inteligente. Contámos-lhe sobre o caso da Alexandra e Pierce disse que havia uma forma para Alexandra comunicar. Essa única forma era cantando, pois o lado do cérebro que comanda o canto é o lado direito.
  Assim que saímos da universidade, fomos para casa da Rafaela. Pedimos à mãe da Rafaela para ligar à mãe da Alexandra para falarmos com ela.
  No dia seguinte, fomos ter a casa da Alexandra por volta das quatro da tarde.
  Explicámos aquilo que o professor Pierce nos tinha dito e pedimos à Alexandra para experimentar. Com muito esforço lá conseguiu cantar. A mãe dela ficou maravilhada.
  Alexandra explicou-nos que não tinha tropeçado numa pedra, mas sim que uma rapariga da escola dela a tinha empurrado, porque estavam a discutir.
  Chamamos a mãe da Rafaela e ela levou a Alexandra à esquadra para  prestar o seu depoimento. Deu o nome da rapariga e a polícia levou-a também à esquadra. Essa rapariga foi acusada de homicídio involuntário.
  A mãe da Alexandra agradeceu-nos e convidou-nos para lá ir a casa comer umas bolachinhas.
  A mãe da Rafaela deu um distintivo a cada uma de nós e disse que irá precisar de nós para resolver mais casos arquivados. Mal posso esperar pelas próximas férias de Verão!
  E pronto, foi assim a minha semana na casa da prima. Ainda sinto a tua falta mãe. Porque é que nos deixas-te tão cedo? Não consigo entender isso. Beijos grandes ada tua adorável filha.

Beatriz.